Não faz muito tempo, vi-me em grande crise com o curso (e, principalmente, a profissão) de jornalismo. Desde então, empenho-me em estudar assuntos que há muito não via ou lia nada a respeito para prestar um novo vestibular ao final do ano. Mas hoje não estou aqui para falar sobre desistir de um curso já no meu oitavo semestre, inventar de ir fazer medicina, nem nada disso.
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A história de hoje começa comigo, sua intrépida narradora, desbravando o ambiente desconhecido e inóspito das salas de cursinhos pré-vestibulares.
Cá estava eu, no auge dos meus 21 anos de idade, acordando as 5h30 da manhã para sentar na primeira cadeira e conseguir absorver melhor o conteúdo da aula. Sempre achei que sentando na primeira cadeira, se o conteúdo não entrasse por bem, ele entraria por mal (ou, quem sabe, por osmose).
Eis que nesta bela manhã de inverno em Salvador - época do ano em que as pessoas saem de casa com seus casacos, pois pode estar 20º lá fora - fui pega de surpresa por um professor que resolveu doar consideráveis minutos de sua aula (e do tempo de centenas de alunos que buscam a sonhada aprovação no final do ano) para fazer um discurso contra a legalização do aborto no Brasil.
Durante toda a sua preleção, precisei me conter e escutá-lo argumentar que o aborto é um assassinato de inocentes (sic), e que o certo não é abortar, é assumir a responsabilidade, é educar a pessoa para que ela não precise passar por esse tipo de coisa, etc. Por fim, a cereja do bolo foi todo aquele discurso de nós devíamos refletir sobre quantos laboratórios americanos não estavam apenas aguardando o Brasil legalizar o aborto para entrar aqui e lucrar muito com isso.
Caro professor, gostaria de usar desse espaço para poder dizer tudo que eu tive vontade de falar na aula e não consegui, devido ao meu desconforto com uma sala de aula que endeusa um professor num palco com um microfone na mão e coloca todos os alunos sentados abaixo dele. Ao me ver diante de uma hierarquia em que o senhor é posto como a voz da razão e da sabedoria, e eu sou uma mera parcela do mar de pessoas que estão sentadas abaixo do senhor, ali, tentando absorver de seu conhecimento, senti-me extremamente acuada para lhe dizer algo. Mas eu gostaria muito de me redimir agora.
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Eu gostaria de convidá-lo a refletir quantos laboratórios já não estão lucrando muito nesse país por fazer esse procedimento de forma ilegal e clandestina. O Aborto está aí, professor. Ele não vai passar a acontecer só se for legalizado. Em um ano, Brasil realiza mais de 1 milhão de abortos e mais de 250 mil internações por complicações pós-abortamento*. Nenhuma mulher no Brasil deixa de abortar simplesmente porque está proibido. Ela pode não fazer o procedimento por questões morais, religiosas, familiares, mas a mulher que quer realizar o aborto vai dar seu jeito de fazê-lo, porque a mulher brasileira já sabe a mudança que traz para a vida dela uma gravidez não planejada / desejada.
Soa-me extremamente incômodo, enquanto mulher, escutar o senhor dizer que é mais correto ter o filho. É muito fácil o senhor falar isso enquanto homem, branco, com boa condição social, adulto e bem estabelecido no mercado de trabalho. Entendo que para o sua realidade, realmente não seria tão ruim lidar com uma gravidez inesperada. Mas eu gostaria de convidá-lo a se colocar na posição de mulher que tem a sua vida inteira afetada a partir do momento em que engravida.
São nove meses vendo todo o seu corpo mudar - e provavelmente saber que ele não vai voltar a ser o mesmo. É abrir mão dos hábitos e da vida que se tem até então, porque toda a sua atenção e empenho passará a ser dada para a criança. É precisar pedir licença do emprego - quando não abrir mão do emprego - para cuidar da gravidez. É não conseguir emprego depois pois se estará com uma criança recém-nascida. É, muitas vezes, ser abandonada (e culpabilizada) pelo pai da criança e virar mãe solteira, porque o companheiro não se vê como responsável em igual pelo acontecimento e não quer assumir a criança. É ter muita dificuldade para achar novos companheiros depois, porque não é sempre que um homem está disposto a se envolver com uma mulher que já tem um filho(a). É saber que todas as suas ambições e expectativas para o futuro não acontecerão, porque agora você vai ter que trabalhar (e muito) para sustentar essa criança que você vai colocar no mundo e será dependente de você.
E não sei se você sabe, professor, mas ter uma criança atualmente é algo muito caro, sabia? Hoje fui comprar um presente para meu primo de 2º grau que faz um aninho amanhã, e a média dos preços da loja era de 59.90 em um brinquedo. Sem mencionar a mensalidade da escola, a alimentação, as roupas, aula disso, curso daquilo, treino daquilo outro. Ter uma criança é tão caro, que a tendência das gerações que vão surgindo é ter uma ou duas apenas, e provavelmente só depois dos 28 anos. Então me diga, professor, o que fazemos com os 51% de mulheres brasileiras que já abortaram e estavam entre 12 e 19 anos**? A gente deixa essas moças passarem por todas essas transformações em suas vidas porque elas se descuidaram durante uma única relação sexual?
Vamos lá. Uma pessoa que engorda até aos 120 quilos também se descuidou, concorda? Mas essa pessoa pode ter a escolha entre encarar de frente e trabalhar duro para ir perdendo esse peso pouco a pouco (com academia, restrições alimentares, etc) ou passar pelo procedimento da cirurgia bariátrica e perder esse peso por outros meios. É uma decisão que compete exclusivamente a ela, porque é algo feito com o corpo que pertence a ela. Pode ter (e tem) gente que jamais faria a cirurgia bariátrica por considerá-la um procedimento muito invasivo, há quem diga que é um 'atalho', mas a pessoa que quer fazer pode - e tem apoio e condições médicas para isso.
Diga-me então, professor, porque uma mulher não pode tomar uma decisão que diz respeito exclusivamente ao corpo dela? Por que ela tem que sujeitar a vida inteira dela às mudanças de ter um filho? A gente bem sabe que não são todas que aceitam a gravidez precoce / indesejada / não planejada, e essas que não aceitam cada vez mais se submetem a procedimentos agressivos e perigosos - que podem inclusive comprometer a vida dela. Sabe o que uma mulher dessa está dizendo, professor? Que ela prefere morrer a ter a criança naquele momento, que aquilo não é o que ela quer para ela. E quem sou eu, ou você, para dizer o que é bom ou não para ela e a vida dela?
Eu, Sofia, se aparecesse com uma gravidez inesperada, provavelmente não abortaria. Mas eu sou contra o aborto PARA MIM. Eu não faria isso comigo. Eu não posso negar, entretanto, esse direito à mulher que não quer assumir a gravidez - se tem um monte de homem aí que não assume a responsabilidade porque é ela que tem que assumir? Quem sou eu para olhar para ela e dizer 'olha, meu bem, seu método contraceptivo não funcionou? Que pena, agora vá fazer um neonatal'?
'Ah, mas o correto é educar essas meninas para que elas possam se prevenir melhor', o senhor me diria. E eu concordo, professor. Educação tem que haver mesmo. Mas infelizmente o Brasil não possui educação igual para todos. Infelizmente a educação em nosso país está privatizada, e quem não tem condição de bancar muitas vezes não encontra a mesma qualidade de ensino na escola pública. Não é todo mundo que tem acesso a uma aula de qualidade como a que o senhor dá.
Até nós repararmos essa desigualdade social e histórica na educação brasileira, nós vamos deixar uma mulher morrer a cada 2 dias numa clínica de aborto clandestina*? Nós não vamos reconhecer que gravidez precoce e aborto não são só problemas educacionais como também são dois problemas de saúde pública? Nós não vamos garantir assistência médica a essas mulheres? Vamos esperar o tempo em que todas as mulheres aprendam na escola como não engravidar de jeito nenhum?
Ou seja, ao discursar contra o aborto, o senhor está me dizendo que nós deveríamos oferecer algo aos jovens brasileiros (educação) mas como infelizmente ainda não temos as condições para oferecer isso da mesma forma a todos eles, nós também não iremos oferecer a eles uma tentativa de reparação social (dando-lhes condições de corrigir os erros que eles fazem por 'ignorância') de maneira segura e legal? O senhor é contra as cotas também, professor? O senhor não entende que nós devemos tentar reparar anos e anos de desigualdade e exploração social com os negros hoje/agora, nós devemos esperar o dia em que todos os brasileiros entenderão que os negros são iguais e têm os mesmo direitos que os brancos e que não devemos discriminá-los?
Não vou entrar na discussão de quando começa a vida - até porque entendo isso como um debate muito religioso sobre o assunto, e o Estado, enquanto laico, não deve tomar suas decisões por esse viés. Mas eu penso que assumir a gravidez pode não causar o 'assassinato de inocentes' antes, mas ele pode perfeitamente vir depois - porque esse menino criado sem condições e preparo algum pode se envolver com tráfico, com drogas, com furtos, com assassinatos. Abortar é mais cruel do que por no mundo sob essas condições? O senhor realmente acha?
Professor, eu respeito perfeitamente o seu direito de ser contra o aborto enquanto ato / ação. Agora eu gostaria de convidá-lo a rever sua opinião sobre ser contra a legalização do aborto. Ou, quem sabe, contra-argumentar as questões que aqui lhe faço com novos pontos, novos dados, novas perspectivas (e me fazer rever as minhas opiniões).
No mais, eu gostaria de convidá-lo a pensar o tipo de discurso que você vai assumir perante pessoas que estão desesperadas para serem aprovadas no vestibular e podem encarar o discurso que você vai tomar em sala de aula como uma verdade. Saiba propor o debate, abra mão na massagem no ego que deve ser tem 200 olhos tendo-lhe como referência, desça do palco e reflita sobre seu papel não só como preparador para uma prova, mas como educador e formador de pessoas.
Proponha a discussão. Não me imponha sua opinião. O diálogo está aberto.
**Dados da Pesquisa Nacional do Aborto 2010
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